Blog do Cadu: Entrevista com a presidente da TV Brasil.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Entrevista com a presidente da TV Brasil.

Deu no Portal da Revista Imprensa


Entrevista com a presidente da TV Brasil.



Tereza Cruvinel fala sobre TV pública e desabafa: "Trabalhar no governo não é demérito para ninguém"


Por Fábio Lino / da revista IMPRENSA, em Brasília



IMPRENSA - Como foi a sua despedida de O Globo?


Tereza Cruvinel - Considero que tenho uma trajetória vitoriosa no jornalismo, principalmente no político, onde fiz toda a minha carreira. Vivi os anos de transformações políticas mais importantes do nosso País. Tive o privilégio de exercitar o jornalismo político por longos tempos, quase 21, em um espaço muito nobre que O Globo me confiou. O jornal me deu uma oportunidade extraordinária de desenvolver minha capacidade analítica e de observar a política com o que eu acho mais importante, que é a busca da compreensão. Foram anos muito gratificantes e, por isso, explicitei a minha gratidão ao O Globo por essa experiência e o jornal também, no texto de Rodolfo Fernandes, no dia da minha despedida, disse que estávamos tendo uma separação amigável, emocionalmente dolorosa, mas que isso fazia parte da minha busca interior de passar outra etapa profissional. Então, por essas razões profissionais, muito mais pessoais do que profissionais, o chamado a fazer coisas novas, ao invés de continuar a fazer por mais 10 anos aquilo que já sabia a fazer muito bem, que aceitei o convite.

A senhora se lembra o dia em que recebeu o convite do ministro Franklin Martins?

A questão da TV Pública é do meu interesse. Quer dizer, eu tive outras oportunidades de deixar o que fazia, coluna política no O Globo e comentário na Globonews, mas só um desafio que me sensibilizasse muito e fosse ao encontro dos meus interesses seria capaz de me levar a dar um passo tão grande como dei. No sentido de trocar um lugar estável, uma trajetória bem sucedida, para uma construção que está começando do zero. Eu sempre acreditei que o Brasil tinha espaço para uma TV Pública. Há muitos anos que existe essa discussão e muita gente acha que isso começou ontem, pelo governo Lula. Não é verdade. Um dia o ministro Franklin Martins me chamou para uma conversa geral sobre como anda o nosso mercado, a satisfação de cada um. Ele estava me sondando, mas eu não tinha entendido. E falamos da TV Pública. Em suma, a conversa evoluiu por aí, se haveria disposição minha para fazer isso. Muita gente não acreditava, nem ele mesmo. Passei três dias pensando e disse a ele que ira conversar com o jornal, com os meus superiores. Fui ao Rio, tive uma conversa com Rodolfo Fernandes e outra com João Roberto Marinho. Foram conversas muito civilizadas, eu diria até muito afetuosas, onde a minha decisão estava muito bem formada. Sempre deixei claro isso. Não tenho nenhuma insatisfação no jornal e nem com as Organizações Globo. Foi um impulso meu de enfrentar esse desafio e assim foi formalizada a minha saída do O Globo. Acho que foi uma das saídas mais amistosas porque nem sempre um desenlace de relacionamento profissional tão longo é pacifico. E tivemos um desenlace muito legal.

Nesse período à frente da coluna, qual foi a matéria mais marcante na sua carreira?

Trabalhei 24 anos no O Globo. Fui repórter de política. Na minha carreira de jornalista política, as coisas mais inesquecíveis estão relacionadas com o fim da ditadura. E a cobertura mais inesquecível é a campanha das Diretas. Cobri alguns comícios e as articulações. Não era colunista. Como colunista, muitas coisas foram especialmente gratificantes, como uma campanha de inclusão digital, que me rendeu o prêmio Unisys. No cotidiano da política, sempre procurei oferecer análise. Tive mais acertos do que erros.

A senhora acredita que experiência da TV Cultura de São Paulo pode ajudar a TV Brasil?

A TV Cultura é uma experiência bem sucedida no sentido de que ela procurou pautar no modelo público de gestão, um Conselho Curador. Embora, ao longo dos governos, haja momentos de maior ou menor intervenção governamental. Esse é um risco permanente de toda TV Pública. Por isso, temos que ter todo cuidado e explicar à sociedade que a TV é sua, sendo que o Conselho é o seu representante. A idéia pode ser resumida em uma pergunta que o ex-governador Mário Covas fez: "como é essa TV Cultura que eu pago, mas não mando?." O governo paga a TV Pública, mas a sociedade, por meio do Conselho, deve controlá-la. Nesse sentido a TV Cultura nos ensinou muito. Mas nenhum modelo é perfeito, acabado. A TV Cultura contribuiu com uma programação muito boa e diferenciada e provou que há espaço para a TV Pública produzir coisas diferentes no Brasil. Você tem um programa como o "Roda Viva" que é vitorioso, talvez um dos programas mais vitoriosos da TV brasileira. A TV pública pode fazer coisas diferentes.

Falando de modelos, vamos pegar dois modelos bem diferentes: o da Venezuela e o britânico. Qual é o que mais se enquadra no caso brasileiro?

A BBC é uma TV pública e é a experiência de mais êxito no mundo porque tem mais independência e, por isso, tem a relação mais tensa com o governo. A TV do Chávez é governamental. O nosso ideal, o espelho que a gente busca, não copiar, mas adaptar experiências é o modelo das TVs públicas européias. Entre elas, destaca-se a BBC.

E o financiamento da TV pública, como será feito? Será cobrado um imposto como acontece em alguns casos da Europa?

Esses R$ 350 milhões são suficientes? Isso está definido na Medida Provisória. Claro que não há espaço no Brasil, pela nossa desigualdade e a carga tributária que é alta, para cobrar um tributo como é na Inglaterra, Alemanha e Canadá. O modelo de financiamento que está estabelecido na MP é dotação orçamentária. Então, os R$ 350 milhões correspondem à dotação orçamentária do ano que vem. O governo federal já gasta R$ 220 milhões com a TVE do Rio de Janeiro e com a Radiobrás. Se você fizer a conta, o acréscimo está sendo muito pequeno, R$ 80 milhões. E se você considerar que várias TVs estaduais vão entrar numa rede, vão ter upgrade na sua programação, vão prestar melhores serviços à população, vão produzir conteúdo regional, esses recursos estão sendo otimizados. Na verdade, não acho que é um investimento tão significativo assim porque já existe uma base de gasto. Com ou sem a TV Brasil, já está se gastando. Além disso, existem outras fontes como publicidade institucional de empresas públicas, estatais e privadas, financiamento de produção com as leis de incentivo à cultura, Lei Rouanet, e podemos obter receitas com doações. E temos também a possibilidade de prestar serviços aos governos federal, estadual ou setor privado, como uma produtora. Nós temos essa diretoria que vai ter essa possibilidade. Enfim, quanto mais nós ampliarmos a receita, além da dotação orçamentária, melhor para a TV Pública, melhor para a sua qualidade e para ela ser mais independente do Estado.

A TV Pública já tem data para entrar no ar? Como está sendo o cronograma e a estruturação?

O nosso objetivo é aproveitar o máximo possível os quadros das duas instituições: o da TVE e da Radiobrás. Tem muita gente de qualidade. Alguma coisa, muito específica, um quadro muito especial. Nós podemos pedir autorização ao Conselho Administrativo para contratar. São casos muito especiais. Recentemente, saiu uma notícia dizendo que a TV pública pode contratar sem concurso. Não se trata disso. Não tem uma fila de inscrições aberta aqui. Também não haverá demissões. No que tange ao cronograma, gostaríamos de aproveitar o dia 2 de dezembro, quando o Brasil entra na era digital, para unificar a programação das emissoras. Temos um canal novo em São Paulo, em sistema digital, que já poderia estrear nesse dia. Gostaríamos de fazer coincidir a era digital com a era da TV pública em rede no Brasil. Mas precisamos avaliar se é possível cumprir esse cronograma, pois há providências burocráticas que precisam ser tomadas para que nada escape da legalidade. Estamos levando com muita cautela e com muito cuidado. Se não for possível cumprir esse cronograma, nós vamos mudá-lo.

A senhora vai mudar para o Rio?

A sede é no Rio, mas a central de jornalismo, dirigida pela Helena Chagas, fica em Brasília. Eu vou procurar estar presente um pouco no Rio, mas vou continuar morando no Distrito Federal.

Por que?

Porque a atividade de um presidente não é de executor da televisão. Não sou diretora executiva, é o Orlando Senna. A atividade de um presidente tem muito a ver com a representação e com as diretrizes gerais da televisão, a interface com o Conselho e com a sociedade. Então, quando as pessoas perguntam muito se eu já dirigi uma televisão, respondo que nunca dirigi. Mas não é isso que vou fazer no dia-a-dia. Não vou operar a programação, o conteúdo diretamente. Por isso que tem a figura do diretor geral executivo que é o Orlando Senna, um homem de televisão, de audiovisual, e com experiência nessa área, além de uma diretoria, de pessoas muito competentes em suas respectivas áreas como Helena Chagas, no jornalismo e toda diretoria.

Por a sede ser no Rio, não dificulta a aprovação?

As bancadas do Distrito Federal e de Goiás vêm expressando forte desejo e pressão para que a sede seja em Brasília. Mas nós temos conversado com eles e demonstrado a dificuldade de transpor para o DF a maior unidade produtora de conteúdo da futura rede que é a TVE. Como você vai transferir uma unidade daquela para Brasília. É uma unidade produzindo. Isso é criar custo. Agora, aqui vai ter um escritório central e o jornalismo, e algum outro conteúdo que também será aqui. Na medida que a rede vai se constituindo, ampliando, veremos para onde ela se expande. Acho que há muito futuro para a TV Brasil em Brasília, mas transpor a principal unidade produtiva para cá é inviável.

O debate dessa televisão não está muito concentrado no eixo Brasília-Rio-São Paulo?

Não é verdade. É porque Brasília, São Paulo e Rio são unidades federais, mais o Maranhão, porque a TVE do Maranhão é federal. São estruturas da Empresa Brasil de Comunicação, empresa gestora da TV Brasil. As outras TVs educativas são estaduais. Nós não mandamos nela e desejamos construir uma rede. Estão chegando pedidos seguidos de estados que querem firmar convênio de adesão para participar da Rede Brasil de Televisão.

Por falar em Conselho, como está a formação? Há especulações das entidades não governamentais que lançam nomes como Mano Brown. Como vê essas especulações?
É natural que muita gente queira entrar no Conselho da TV pública. É natural que haja implantação de nomes para ver se emplaca. É natural que as organizações pensem que será uma federação de entidades representativas da sociedade. Mas não é assim. A concepção do Conselho é que ele seja composto com pessoas com grande representação da sociedade, mas, enquanto pessoas físicas, enquanto profissionais, enquanto intelectuais ou enquanto ativistas de um setor. Mas não de entidade, não de organizações, não de movimento sociais ou sindicais. Acabaria-se tendo uma espécie de partidarização. O que se busca é um conselho plural. Agora, eu, como presidente da diretoria executiva, não estou apitando na montagem do conselho. Não devo.

Mas quem está sugerindo esses nomes? O presidente Lula?
Acho que o presidente Lula buscou a forma mais democrática de montar esse Conselho. Ele poderia tirar do bolso do colete. Mas o que ele fez foi convidar uma pessoa com trânsito muito largo na sociedade, de muita respeitabilidade que é o doutor Luiz Gonzaga Belluzzo e o encarregou de apresentar uma lista múltipla de nomes. Agora, fica uma pergunta: se não for o presidente, quem fará a nomeação? Vamos fazer uma eleição direta? Estudamos todos os conselhos de gestão pública no mundo e, até agora, não há exemplos em que o Conselho Curador surja da própria sociedade. Ninguém descobriu uma fórmula mais democrática. Na Inglaterra, por exemplo, a rainha apresenta nomes ao primeiro-ministro. Quem apresenta para a rainha? Acho que não há muito como fugir desse esquema. Agora, o presidente da República não pode destituir um Conselheiro. Quem pode destituir um Conselheiro são três quintos do próprio Conselho.

Há pressão de aparelhamento político desse Conselho?

Olha, acho que se o presidente Lula quisesse fazer um Conselho para atender interesses políticos ele tiraria do bolso e indicava sem ouvir ninguém. Acho que, quando o Belluzzo divulga os nomes que apresentou, isso já dificulta a eventual tentativa de aparelhá-lo. Há alguns critérios, como ninguém do governo pode entrar e não haverá representantes de partidos. A não ser que o Congresso faça uma mudança na MP, que inclua representantes das duas casas. Não vejo nenhuma pressão. O que vejo são aspirações, muita gente gostaria de ser membro do Conselho.

Mas é um poder fascinante o da televisão... É um risco que se apresenta, caso sejam aceitas pressões de pessoas de uma determinada tendência, assumir cargos-chave dentro da TV?

Até agora não vi nenhum nome que represente aparelhamento. Todos os nomes que devem estar na lista do doutor Bellluzzo são representativos. Tenho certeza que o presidente Lula, ao escolher essas pessoas, estará consciente de que é muito importante a representatividade desse primeiro Conselho para a credibilidade da TV pública. Não tenho receio de que esse Conselho tenha distorções em sua finalidade.

Como está vendo as críticas que vêm da oposição no Congresso à TV pública?

Existem alguns parlamentares que acham que a TV é desnecessária, mas a crítica mais freqüente que está vindo do Congresso é o uso de medida provisória ao invés de projeto de lei. Sobre isso já conversei com alguns parlamentares e pretendo conversar com muitos explicando duas coisas: a primeira, o porque da medida provisória. Seria ideal se tivesse um projeto de lei fosse discutido durante um ano no Congresso. Seria ideal se essa TV pública tivesse nascido do zero. Agora, quando envolve duas instituições já existentes (TVE e Radiobrás), onde já há grande insegurança sobre o futuro, sobre o que será feito dos funcionários, do patrimônio, acho uma temeridade ficar discutindo durante meses e as pessoas ficarem mais tempo expostas às incertezas. A outra questão é o dia 2, a entrada da TV digital. É esse momento tecnológico novo que viabiliza a constituição da TV pública e que gostaríamos de estar nesse calendário.

A senhora disse que quer conversar com muitos parlamentares. Antigamente, esses parlamentares eram a sua fonte. Hoje, está trabalhando para aprovação de um projeto. Como a senhora vê essa inversão de papel?

Olha é uma mudança de papel, mas não estou sentindo nenhum desconforto. Porque estou convencida da necessidade e da oportunidade rara, talvez a última, de ter uma rede de TV pública no Brasil. E quando você está convencida de que tem uma boa causa, reduz qualquer desconforto. Não tenho dificuldades de conversar com nenhum segmento do Congresso. Fiz um jornalismo pluralista que sempre dialogou com todas forças políticas. Hoje tenho canais e isso está sendo um bom capital para exercer essa tarefa de debater. Tenho várias agendas no Congresso e irei em todos os fóruns para explicar a TV pública.

Acredita que a MP da TV pública pode ter o mesmo caminho do Ministério do Futuro, quando foi rejeitado no Senado?

Não acredito nesse risco. Primeiro, porque este episódio aconteceu no contexto de disputa máxima na crise do Senado. Creio que a MP da TV pública vai ser votada em outro contexto. Segundo, aquilo foi um troco de uma bancada [PMDB] e foi mal gerida politicamente. Nós esperamos não cometer nenhum erro no gerenciamento da tramitação da MP. Para isso mesmo que será feito esse trabalho de contato direto dos gestores com os parlamentares. É claro que os ministros Franklin e Mares Guia vão ajudar, os líderes do governo, mas nós, que vamos ser responsáveis pela implantação da TV, estaremos lá diretamente. Eu, Helena Chagas e o Orlando Senna estamos dividindo tarefas nesse sentido.

Acredita que quando sair da TV pública a sua credibilidade vai ficar abalada por participar do governo Lula?

Duas coisas. Primeiro, embora não ache que trabalhar em governo não seja demérito profissional para ninguém. Muitos grandes profissionais trabalharam e voltaram para o mercado de trabalho. Embora não veja nenhum problema nisso, estou indo dirigir uma instituição independente que o governo patrocina. Não estou trabalhando em uma atividade fim do governo. Não sou ministra do governo, presidente de estatal. Vejo a TV pública independente, que tem apoio do governo. Quanto as minhas dificuldades profissionais, não tenho receio sobre o meu futuro. Primeiro, porque acho que tenho experiência profissional suficiente para fazer muitas coisas na vida. Não sei o que vai ser feito quando o meu mandato acabar. Se a MP for aprovada e a TV pública for vitoriosa, terei um mandato de quatro anos demissíveis pelo Conselho Curador. Antes de ser jornalista, venho de uma longa trajetória, fiz muitas outras coisas. Se não tiver mais espaço no jornalismo, não terei dificuldades para sobreviver.

Há muito tempo a senhora vem sofrendo acusações de que tem ligações com o PT, principalmente do Diogo Mainardi. Esses ataques pesaram na sua decisão?

Eu seria falsa se falasse que não senti nenhum desconforto, nenhum desagrado com isso. É realmente muito desconfortável. Você está trabalhando, dando o melhor de si, fazendo o jornalismo de sempre, meu jornalismo é o mesmo de vinte atrás, pautado pelo significado dos fatos. Mas não foi isso que pesou na minha decisão, esse tipo de ataque sofro desde 2004. No governo Fernando Henrique, também, muita gente gostava de dizer que eu era serrista porque cobri as atividades do ministro José Serra, que foi excelente Ministro da Saúde. Então, isso vem de longe. Mas, como a luta política se acerbou no governo Lula, esse tipo de projeção da luta política no jornalismo aumentou. Mas isso não pesou na minha decisão. Isso vem acontecendo. Passei por isso no outro governo, nesse, mas não foi isso que pesou. Acho que o jornalismo passa por um momento difícil por conta dessa ocorrência mais acuda de intolerâncias e de projeção de luta política. Mas o jornalismo é uma atividade eterna, a mais bela profissão do mundo, maior que essas dificuldades conjunturais.

Quando sofreu esses ataques do Diogo Mainardi ficou muito calada. Você tem alguma coisa, uma reposta para ele?

Não tenho nada a dizer a ele. O meu trabalho é que fala por mim. O meu trabalho na minha saída foi amplamente reconhecido pelas pessoas que entendem do jornalismo.

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