Blog do Cadu: Os 20 anos do "senil é você" de Brizola a Roberto Marinho

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os 20 anos do "senil é você" de Brizola a Roberto Marinho



O último dia 15 de março completou vinte anos do direito de resposta de Leonel Brizola sobre a Globo. Sua carta foi lida pela voz do apresentador e “cara” do Jornal Nacional Cid Moreira.

Brizola nunca teve receio de encarar o poderoso grupo de mídia da família Marinho. Tirando-lhe, inclusive, a exclusividade na transmissão do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Um editorial do jornal O Globo chegou a chamar Brizola de senil. O desrespeito dos Marinho é tão grande que se um governante não lhe pede a benção, ofensas tentativas de golpe lhe acompanharão todos os dias.

Ao assistir, pela enésima vez, o vídeo de Cid Moreira lendo a carta de Brizola, sempre volta a saudade de esse militante político. Que cometia inúmeros erros, mas não tinha receio de defender seus pontos de vista. E hoje, com a postura golpista da imprensa grande tão escancarada, tão à vista para quem quiser ver, um Brizola faz muita falta e alimenta o sentimento de saudades.


De uma forma de dizer só dele, Brizola respondeu a ofensa que lhe foi feita. “Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil. Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si”.

Assista ao vídeo da carta de Brizola lida por Cid Moreira  durante o Jornal Nacional de 15 de março de 1994. Após o vídeo, segue a íntegra do documento.




DIREITO DE RESPOSTA

Todos sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro.

Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil.

Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que o use para si.

Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país.

Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário, que para ela representa a transmissão do Carnaval.

Dinheiro, acima de tudo.

Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval carioca. Também aí não tem autoridade moral para questionar. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior.

E isso é que não perdoarão nunca.

Até mesmo a pesquisa mostrada na quinta-feira revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria antes um dever para qualquer órgão de imprensa, dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.

Quando ela diz que denuncia os maus administradores deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante do seu poder.

Se eu tivesse as pretensões eleitoreiras, de que tentam me acusar, não estaria aqui lutando contra um gigante como a Rede Globo.
Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado.

Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o governo federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível: quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesma.

Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência lúcida e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros.

Leonel Brizola

4 comentários:

coletivo brasil disse...

Meu caro, só discordo do "cometeu muitos erros". Acompanhei o velho Briza a partir de 1989, quando deixei um cargo de diretório do PT e até me desfiliei do partido, por entender que a vez (até pelo preparo)era do Briza, e não me lembro de nenhum erro dele. Ele via atrás do morro. Erro, que vi, foi do nosso companheiro Lula, em não perceber que estava sendo usado ou em não se importar com isso. Erro que vi foi do PT em aceitar o coro global cantando o lula-lá. E derrotando o maior homem que este Brasil produziu no século passado, o Briza, que ganharia as eleições do Collor, por conta do apoio do PMDB e de seus governadores.
Tudo. Mas ao falardo Brizola é sempre bom ter um pouco de cuidado e o máximo de respeito. Vi o Jair Meneghele dizendo que ele não gostava do povo... Que anta, meu Deus! O próprio Pt aprendeu com o Briza. Antes, só falava em "trabalhador". E, por influência paulista-uspiana, achava que falar em "povo brasileiro" era populismo...
Desculpe-me essas colocações. Um forte e fraterno abraço.
Mateus Alves da Silva

Cadu Amaral disse...

Meu caro, Brizola cometeu vários erros, mas isso não diminui. Brizola apoiou Collor no segundo turno de 1989, por exemplo.

Aprender, o PT e toda a esquerda deve mesmo ter aprendido com ele. Assim como ele deve ter aprendido com a esquerda também.

Brizola foi uma grande figura d apolítica nacional, mas não era um deus, não era dotado de perfeição.

Forte abraço

Rebeca Perez Silva disse...

A família Marinho ferra com o Brasil há anos a fim de defender seus proprios interesses.

Cadu Amaral disse...

Quero aqui corrigir um erro, que me foi alertado por Mateus Silva no Facebook: Brizola não apoiou Collor no segundo turno de 1989 e sim, logo que começaram as movimentações do impeachment de Collor em 1991.

O que ainda assim continua sendo um erro na opinião desse escriba