sábado, 30 de junho de 2007

Bloco conservador

Artigo de Guiseppe Cocco, professor da UFRJ, sobre Universidade Brasileira.


Bloco conservador
GIUSEPPE COCCO


Os números do ensino superior são, para a jovem democracia brasileira, vergonhosos. O Brasil tem quase 10% da juventude entre 18 e 24 anos na faculdade (sendo 3% nas estatais, 7% nas particulares). Na Europa, a taxa de inclusão universitária é de 60% a 80%. Sem ir tão longe, na vizinha Argentina, 40% dos jovens freqüentam as universidades. Aqui, menos de 10%. E, destes 10%, dois quintos nem chegam a se formar. Diante disso, as tentativas do governo Lula de implementar o urgente processo de democratização do ensino superior enfrentam os interesses de dois blocos ideológicos. O primeiro mobiliza uma retórica de "esquerda": "Vamos barrar as reformas neoliberais de Lula e o FMI." Quando o governo regulamenta o estatuto filantrópico das universidades particulares atrelando-o a bolsas de entrada para alunos pobres (o Prouni), grita-se contra a privatização. Quando a reforma universitária previa a expansão do número de vagas, protestava-se dizendo que era preciso aumentar as verbas e os investimentos de permanência. Agora, que o governo lança um programa de aceleração da expansão das vagas de alunos nas universidades federais que prevê recursos suplementares para aquelas instituições que o realizam efetivamente (o Reuni), afirma-se que o decreto fere a autonomia universitária e a isonomia orçamentária. O segundo (e bem mais importante) bloco, o "liberal", mobiliza uma retórica "meritocrática" e, invocando supostos critérios de eficiência, opõe-se à democracia. Para essa tipologia de "liberais", o mérito é um ponto de partida (que necessariamente reproduz o violento status quo) e não aquele resultado que somente a excelência democrática permite alcançar. Direita e "esquerda" neo-arcaicas e corporativas se juntam em um único bloco conservador. O velho medo aristocrático transforma a democracia em monstro. Não é por acaso que os supostos liberais e a suposta "esquerda" condenam as cotas anti-racistas: é contra os movimentos dos que estão de fora das universidades por causa de sua renda e portanto de sua cor e, vice-versa, por causa de sua cor e, pois, por causa de sua renda que as elites neo-escravocrata e corporativo-tecnocrática se reproduzem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Coloque sua idéia, ponto de vista ou posicionamento. Afinal, toda discussão para contruir ideias é válida. Também pode discordar da opinião expressa no texto, mas sem ofender de qualquer forma que seja.

Caso algum comentário não se enquadre, será deletado. Também peço que assine.

Por isso, os comentários são moderados.

Forte abraço!

Cadu Amaral