terça-feira, 28 de outubro de 2008

Eleições no Rio

Eleições no Rio

Por Bernardo Cotrim*


Depois de 16 anos de governo (direto e indireto) do César Maia, a hegemonia do prefeito foi pro espaço. Muito desgastado, mal avaliado e com enorme rejeição popular, o cenário eleitoral indicava que o prefeito certamente sairia pela porta dos fundos. Este quadro possibilitou uma fragmentação enorme de candidaturas, já que nenhum nome aparecia como o grande aglutinador de uma frente política capaz de estabelecer uma nova hegemonia pra cidade. Nós do PT apresentamos a candidatura do Alessandro Molon, jovem deputado estadual pouco conhecido do "grande público"; o PCdoB insistiu na candidatura da Jandira Feghali, desta vez coligado com o PSB; o PDT lançou o deputado estadual Paulo Ramos. Se contarmos o bloco PSOL/PSTU (com a candidatura do deputado federal Chico Alencar), o PCB (que teve candidato próprio) e o folclórico PCO, a esquerda se apresentou com 6 candidaturas.

Por outro lado, a direita também apareceu fragmentada: Eduardo Paes, do PMDB, mas com trajetória no DEM e no PSDB; Solange Amaral, do DEM, apoiada pelo prefeito Cesar Maia; Crivella, do PRB, pastor evangélico e senador, que mais uma vez despontou em primeiro nas pesquisas e nem ao segundo turno foi; e a novidade Fernando Gabeira, do PV, apoiado pelo PSDB e pelo PPS, tentando dar nova roupagem para o discurso da direita carioca.

O resultado do primeiro turno todo mundo viu: o PT, com um bom candidato e uma péssima campanha, fez apenas 5% dos votos; Paulo Ramos e Chico Alencar fizeram exatamente o que representam: 1% do eleitorado (mas garantiram boa exposição para as respectivas campanhas de deputado pra 2010); Solange Amaral, amarrada na âncora do Cesar Maia, ficou com 4%! E a disputa eleitoral ficou entre o queridinho da Globo, Gabeira, que havia sido abandonado pela mídia por ser uma mala difícil de emplacar, mas que virou fenômeno de classe média e voltou com destaque e elogios diários aos jornais; Paes e sua cara de oportunista, trajetória de oportunista, discurso conservador e o apoio do governador-amigo-do-Lula Sergio Cabral; Crivella e sua sempre expressiva votação no eleitorado mais pobre e no segmento evangélico, acompanhado da mais alta rejeição (às vezes, bastante preconceituosa) que um candidato pode ter; e Jandira, do PCdoB, nome mais conhecido da esquerda, disputando a terceira eleição majoritária seguida, que passou a eleição inteira repetindo o mantra do voto útil de esquerda, sem empolgar ninguém, enquanto despencava nas pesquisas.

Na última semana, ao perceber a possibilidade de emplacar o seu candidato mais confiável no segundo turno, o tucano-verde Gabeira, assistimos a multiplicação dos globais no programa de TV, a um espaço diário no jornal desproporcional aos demais candidatos e a um esvaziamento das candidaturas de esquerda na classe média enorme, pois Gabeira seria o único capaz de derrotar Crivella. Como todos viram, deu certo: Jandira encolheu e ficou com 9%, depois de liderar as pesquisas; e o segundo turno foi mesmo entre Paes e Gabeira.

Nota trágica: se política fosse matemática, a soma dos 6 candidatos de esquerda (Molon, Jandira, Chico, Paulo Ramos, Eduardo Serra e o figura do PCO) não daria 1 Crivella. Todos juntos alcançaram 18% dos votos, enquanto Crivella, terceiro colocado, fez 19%.

No segundo turno, disputado entre 2 candidatos conservadores, ocorreu um fenômeno interessante: o ex-tucano Paes, que pediu a prisão do filho do Lula, decretou o fim do governo federal e fez outras peripécias para agradar a mídia, a classe média e o PSDB, virou, por obra e graça do Cabral, o candidato do governo Lula, imediatamente apoiado pelo PT, PCdoB, PDT, PSB e PRB; e o liberal com passado socialista Fernando Gabeira, sustentado - política e financeiramente - pelo bloco PSDB/DEM/PPS, escondendo o apoio do prefeito Cesar Maia (diga-se de passagem, sempre apoiado pelo PV de Gabeira, que teve secretarias na prefeitura durante todos os governos), representando a pauta da direita: privatizações, "voluntariado", choque de capitalismo... e vomitando elitismo e preconceito, com seu ar cínico e blasé.

Domingo, Paes sagrou-se vitorioso por apenas 50 mil votos de diferença, na eleição de capital com o maior índice de não comparecimento. Choram a mídia e a classe média, que aproveitou o feriadão pra viajar, justificou o voto e agora coloca a culpa no governador, que transferiu o feriado do funcionalismo público de terça pra segunda (como se o feriado na terça fosse impedir a classe média de viajar e enforcar um dia de trabalho). Ganham com isso Cabral e o PMDB, com a conquista de mais uma capital (a segunda maior cidade do país), e o governo Lula, já que Paes foi obrigado, pelos apoios que recebeu, pelo governador e pela necessidade, a defender a harmonia entre os 3 governos, e a fazer referências elogiosas ao governo Lula. Gabeira encarnava a oposição ao projeto federal, com o apoio de Armínio Fraga, Aécio Neves, Beto Richa, Edward Amadeu, Arnaldo Jabour e outras figuras importantes da direita brasileira.

No final de tudo, a esquerda em geral - e principalmente o PT - sai muito derrotada do processo. Uma bancada pífia, todos os candidatos abaixo dos 2 dígitos e pouca capacidade de polarizar o debate de projetos. Perde também o DEM, varrido da prefeitura, que viu sua bancada encolher e, com a vitória de Paes, perdeu a chance de conservar postos importantes na estrutura de poder do município. Ganham o PMDB, que elegeu o prefeito e terá maioria confortável na base, mas ganham também o PSDB, que conseguiu ressuscitar na cidade onde vagava moribundo há algumas eleições, elegeu a vereadora mais votada da cidade e ganhou uma sublegenda e uma figura pública para as disputas futuras; e Gabeira e o PV, alçados a um papel de protagonismo no cenário político da cidade como porta-vozes da classe média e do projeto neoliberal.Para nós, sobrou o imenso desafio de reconstruir trabalho na cidade, rediscutir os dilemas da sociedade e avançar na organização de um projeto popular para o Rio de Janeiro. Por enquanto, estamos que nem Carolina: "a porra toda passa na janela, e só a esquerda não vê..."


*É Historiador e ex-diretor da UEE/RJ e dirigente do PT/RJ

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