A entrevista foi boa, bem conduzida por Joelmir Betting. As perguntas, de modo geral, foram incisivas e realmente questionadoras, críticas, mas sem agredir. Mitre e Teles, obviamente, colocaram os questionamentos mais aprofundados, mais conscientes e, por consequência, mais interessantes. Perguntaram sobre reforma tributária, política externa (tema cada vez mais caro à grande imprensa brasileira)… Enquanto isso, Datena criticava o trânsito, dizia que um motoboy morre a cada hora e perguntava se Lula gostaria de ser presidente do Corinthians. Estava completamente deslocado da proposta histórica do Canal Livre e da entrevista com Lula especificamente. Fora do tom dos outros jornalistas, Datena não acrescentou nada, dando um certo ar trash ao programa.
Boris, por sua vez, quis ser a estrela do programa, da mesma forma como, segundo a revista O Cruzeiro, foi estrela do antigo CCC (Comando de Caça aos Comunistas) da ditadura militar brasileira. Atacou Lula ao mesmo tempo em que demonstrava todo o seu desconhecimento inclusive sobre assuntos que deveria conhecer, como o próprio jornalismo. Ao atacar Lula, afirmou, por exemplo, que o governo propôs projetos para “controlar a informação” – expressão destorcida usada por Fernando Mitre –, ao que Lula respondeu que a proposta partiu da Fenaj. Boris ainda disse que a “ANVISA” queria limitar a mídia, querendo referir-se à ANCINAV (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual).
Enquanto isso, José Luiz Datena perguntava a Lula quem será o novo presidente, comentando que Serra está nove pontos na frente de Dilma segundo a última pesquisa. Datena ignorou a pesquisa do Vox Populi, considerando apenas a do Datafolha, sem considerar que elas apresentam dados conflitantes.
Voltando a Boris Casoy, o âncora do Jornal da Noite vomitou mais uma vez
A entrevista valeu a pena. O Canal Livre é um dos raríssimos programas de debate da televisão aberta brasileira e, ainda que tenha tido, nessa edição especial, convidados como Boris Casoy e José Luiz Datena, cumpriu a missão jornalística a que se propôs.
* O jornal O Sul, em sua edição de sábado, mostrou a pior face do jornalismo, notadamente do jornalismo gaúcho. O jornal fez propaganda gritante da candidata a deputada e ex-secretária de Cultura do RS, Mônica Leal, do PP. O título da “matéria” foi “Mônica Leal conta o que fez na Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul”. Matéria claramente encomendada, que deveria envergonhar todo e qualquer jornalista gaúcho e brasileiro, é na verdade uma peça publicitária disfarçada de texto jornalístico, tenta conferir credibilidade jornalística a um texto publicitário, à campanha eleitoral da ex secretaria de Cultura. Na mesma edição, O Sul falou sobre o caso da agressão covarde a um morador de rua de Porto Alegre, chamando na capa “Vândalos pintam e urinam em morador de rua na capital”. Vândalos? Com essa expressão, O Sul reforça a visão expressa pelos covardes que agrediram o homem: trata o morador de rua como um objeto. Vândalo é quem destrói um objeto, uma coisa. Quem agride um ser humano não é vândalo, em hipótese alguma. Esse tipo de ato ocorre porque a sociedade não considera pessoas os moradores de rua. O Sul reforçou essa visão ignorante e preconceituosa.
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