sexta-feira, 9 de março de 2012

A década de 30 nos ensina

Ao se tratar de economia, crescimento e desenvolvimento econômico e social, na maioria das vezes se ignota o fator histórico, político, das relações sociais e de classe e ações do Estado na indução e regulação do processo econômico. Muitos se preocupam só com os números que, de certa maneira não representam a realidade.

Por Paulo Daniel*

O crescimento econômico de 2011 pode não ter sido um grande resultado, como não foi, mas com a lógica e a estrutura econômica estabelecida (aumento dos juros e redução dos gastos do governo) o resultado não poderia ser outro. Mas, ao mesmo tempo, analisando sob esse prisma, o resultado não foi tão ruim.

Entretanto, a questão central não é essa. O que se tem observado é que o capital industrial brasileiro ainda “puxa” o PIB, mas com o câmbio valorizado em conjunto com a maior taxa de juros do mundo não se pode cobrar outro resultado se não a redução de seus investimentos e, por sua vez, uma redução da renda nesse setor.

Ao observar com maior detalhe a composição do PIB compreende-se que apesar de queda de rendimento da indústria de transformação, o consumo das famílias brasileiras acresceu-se em 1,1% na passagem do terceiro para o quarto trimestre e, evidentemente, descontado a sazonalidade, período esse em que as importações de bens e serviços aumentaram 2,6%, em contrapartida as exportações cresceram 1,9%.


Não custa lembrar que as nossas exportações em sua maioria, cerca de 80%, são produtos de baixa tecnologia, as famosas commodities, e importamos, em gane parte, produtos de alta tecnologia (aproximadamente 80%), não precisa ser nenhum grande economista para observar uma perda nos termos de troca, ou seja, “vai café e nos retorna nescafé”. Do ponto de vista das relações internacionais dependemos e, muito, desse tipo de bens para que a nossa balança comercial seja relativamente superavitária, portanto, qualquer interferência nos preços dessas mercadorias interferirá na renda da economia brasileira.

Neste sentido, a história pode-se nos ajudar a compreender que apesar de o planeta estar em uma grande crise, poderemos alavancar e desenvolver a nossa economia, assim como na década de 30. Na época, é bom lembrar, éramos uma economia cafeeira, extremamente dependente do mercado internacional, o nível de renda naquele período recuou, por conta da crise de 29, entre 25% e 30% e o preço dos produtos importados elevou em média 33%. É também nesse período que ocasionou a perda da hegemonia política pela burguesia cafeeira em favor da classe industrial ascendente.

Pois então, qual foi a saída? Incentivo e desenvolvimento da indústria e do mercado interno. Ou seja, a crise de 29 caracterizou para a nossa economia um momento de ruptura com o chamado modelo primário-exportador em benefício de um modelo de desenvolvimento do mercado interno. Evidente que esse modelo como foi muito bem relato e descrito pela Profa. Maria Conceição Tavares em seu clássico da economia brasileira, Da substituição de importações ao capitalismo financeiro, já apontava seus limites e contradições. Transportando para os nossos dias, a hegemonia econômica e política pode ser compreendida pelo famoso agrobusiness em conjunto com o capital financeiro nacional e internacional, além do que, aqueles(as) que contribuem com o terrorismo da (des)informação quando, por exemplo, o governo através do Banco Central do Brasil implementa uma medida mais “ousada” como foi a última redução da taxa SELIC, surge aí, os conspiradores da hiperinflação e os arautos do baixo crescimento econômico.

Portanto, é mais do que urgente o Estado brasileiro romper com essas amarras que fazem patinar a economia brasileira. Para sequer imaginarmos um novo processo de desenvolvimento capitalista brasileiro centrado na produção e reprodução da riqueza real requer muito mais do que medidas econômicas e de incentivo a economia, mas também, e fundamentalmente, a construção de uma nova hegemonia politica que esteja preocupada com o desenvolvimento para todos e não com crescimento para alguns. Caso contrário viveremos sempre esse “stop and go” camuflado.


*Retirado do site da CartaCapital – clique aqui

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