Discordância.
Algo tão salutar para fomentar construções no campo das ideias. É na discordância
e contradição que muitos avanços surgiram na humanidade. Exemplos não faltam. Por
mais que discorde da posição de alguns médicos, sobre o Mais Médicos, do
governo federal, não dá para dizer que essa postura não é legítima. Mas a
sabotagem, não dá para aceitar.
Na
primeira semana de inscrição para o programa mais de 11 mil médicos, de 753
cidades se cadastraram, 80% deles formados no Brasil. O tempo de participação
no programa é de três anos. Porém há rumores de que muito o fizeram para não
assumir a vaga que pleitearam apenas para atraso de cronograma e criar
confusão. Pensam essas almas sebosas estarem sabotando o governo federal, mas
sabotam o povo mais pobre, especialmente os de locais mais distantes e dos 700
municípios brasileiros onde não existe um único médico sequer.
Os
que discordam alegam, entre outras coisas, que falta estrutura em hospitais
públicos e postos de saúde. Forma às ruas com essa premissa. O gozado é que
nunca o fizeram antes. Nunca “pintaram” as ruas de branco com seus jalecos
cobrando das autoridades melhores estrutura hospitalar pública no Brasil. Então
por que agora?
Toda
a “revolta” começou após o governo federal anunciar a vinda de médicos
estrangeiros – cubanos! – para suprir vagas na atenção básica, em cidades do
interior. Se a informação fosse de que viriam profissionais dos EUA, por
exemplo, talvez o ranger dos dentes fosse menor. Para disfarçar o preconceito
contra a ilha com a melhor medicina preventiva do planeta, passaram a cobrar a
infraestrutura.
É
mais do que justo reclamar desse problema. Ninguém em sã consciência se nega a
fazer isso. Mas também não dá para negar o aumento em investimentos nessa área
na última década. A saúde no Brasil é municipalizada. Se o dinheiro vem e não é
aplicado, cobre da sua prefeitura. Em alguns casos, como hospitais gerais, do governo
estadual.
Depois
cobraram plano de carreira para que os médicos pudessem voltar do interior para
as capitais. Chegaram a comparar com a carreira de juízes, onde o Estado dá
mais garantias do que devia, vamos combinar. Será que os médicos estariam
dispostos a abrirem mão das clínicas particulares para se dedicarem
exclusivamente ao SUS? No Judiciário juízes e promotores não podem advogar. Com
a palavra o Conselho Federal de Medicina (CFM) ou a Federação Nacional dos
Médicos (Fenam).
Outro
argumento é o do aumento do curso de Medicina em dois anos a partir de 2015. Esses
anos a mais são para atendimento de atenção básica no SUS. Entre as diversas
alegações está o de que o internato – etapa obrigatória nos cursos de Medicina –
já se dá pela rede do SUS. Mas ninguém de jaleco diz que essa etapa é feita de
forma fragmentada pelas especialidades médicas. O que se propõe é que nos dois
anos de SUS os estudantes atendam o paciente como um todo e com o devido
acompanhamento das universidades.
Aí
falam que as instituições de ensino superior não estão preparadas para essa
mudança e que os reitores não foram consultados. Sobre o preparo, essas
mudanças no curso de Medicina somente passam a valer a partir de 2015. Ou seja,
os que ingressarem nos cursos a partir dessa data é que passarão por essas
mudanças. Sobre os reitores, sim, eles deveriam ter sido consultados.
Sobre
as remunerações não há o que dizer. Dez mil reais, mas ajuda de custo com o
deslocamento que pode chegar a R$ 30 mil.
E
o Revalida?
O
exame para revalidação do diploma médico existe para que profissionais médicos de
outros países atuem no Brasil. Outras nações aplicam testes semelhantes. Como quase
tudo na vida, há um porém: se os médicos estrangeiros que vierem para trabalhar
no Mais Médicos fizerem o Revalida, após o término do três anos de programa,
eles poderão atuar onde quiserem no país. O que geraria disputa de mercado com
os médicos brasileiros. Essa não é a intenção do governo federal.
Ainda
sobre esse exame: os brasileiros que estudam no exterior estão na sexta
colocação do ranking de aprovados no Revalida. Venezuela e Cuba são os primeiros
colocados, respectivamente. E por que não aplicar a prova aos formandos em
Medicina, assim como faz a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para os
bacharéis em Direito que desejam exercer a advocacia? O que tem de médico que
não olha para o paciente e seus diagnósticos são sempre a maldita virose, não
tá no gibi.
Ninguém
nunca, em lugar algum, afirmou que a vinda dos médicos estrangeiros ou a ida
dos médicos brasileiros para o interior e as periferias das grandes cidades é a
salvação da lavoura ou que todo o resto vai de vento em popa. Mas que isso
ajuda e muito a questão do atendimento preventivo e na atenção básica, ajuda
sim.
De todo jeito, sempre
vale o debate. A sabotagem, não. Você é médico e não quer participar do Mais
Médicos, acha que um absurdo ser “escravizado” com salários de R$ 10.000,00
atendendo pobres, simplesmente não se inscreva no programa. E depois tem gente
que acha ruim quando se afirma que médicos (sempre há exceções!) são elitistas.

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