Blog do Cadu: Maceió, terra dos homicídios e da hipocrisia

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Maceió, terra dos homicídios e da hipocrisia



Maceió é uma das cidades mais violentas do planeta e, consequentemente, a capital com maior número de homicídios do Brasil. São 111,1 homicídios por cem mil habitantes, segundo dados do Mapa da Violência do Ministério da Justiça.  Na capital alagoana se mata mais do que guerras como a do Iraque. No período da guerra no país do Oriente médio, o índice de mortes por cem mil habitantes era de 64,9.

De acordo com dados apresentados no dia 25/02 pela Comissão de Direitos Humanos da OAB/AL, nos últimos dois anos 2696 jovens, entre 15 e 29 anos, foram mortos, sendo que desses, 2337 (86,68%) foram vítimas de arma de fogo. Ainda segundo a OAB, a maioria dos jovens é negra.

Um dia após o anúncio dos dados da OAB/AL, o empresário Guilherme Paes Brandão, dono do bar e casa de shows Maikai, no bairro de Jatiuca, foi assassinado. A suspeita é de ter sido latrocínio, roubo seguido de morte. Como se trata de uma vítima da classe média, logo o governo do estado designou um delegado especial para investigar o caso.

Aos jovens negros segue a rotina normal de investigação. Muitas famílias jamais verão os culpados da morte de seus parentes presos e condenados. O que motivou toda a “dedicação especial” do aparato policial alagoano para desvendar o crime do empresário Brandão se deve à sua condição social: classe média.

O secretário de Defesa Social do estado Eduardo Tavares chegou a comparecer ao local do crime, o bar Maikai, de propriedade da vítima. Algumas pessoas informaram ao Blog que a ordem para seu gesto “veio de cima”. Ao chegar no local, Tavares recebeu uma sonora vaia.

Em entrevista, o secretário de Defesa afirmou sobre o crime que “se fosse no Jacintinho ninguém faria isso, mas aqui nesta região é diferente”. A fala de Tavares, apesar de inoportuna pelo cargo que ocupa, não é falsa.

Porém, o mesmo se valeu da crítica que fez ao indicar um delegado especial para o caso. Se a reação diante do assassinato do empresário Guilherme provoca uma reação atípica de algumas pessoas diante de crimes desse tipo pela classe social a qual pertencia, a reação do Estado seguiu a mesma lógica. No popular foi o sujo falando do mal lavado.

No dia em que jornais e sites estampavam as mais de duas mil mortes de jovens negros das periferias das cidades alagoanas, não houve um único status de rede social com indignação. Bastou surgir a notícia da morte do empresário de classe média e textos, muitas vezes, enormes e repletas de frases de efeito começaram a pipocar na internet.

Os indignados, revoltados, cansados de tanta violência só se manifestam quando a morte bate, literalmente, à sua porta. Quando as mortes ocorrem na periferia e entre os pobres, longe de suas varandas e calçadas, é apenas estatística e, por vezes, aparecem comentários do tipo “ele escolheu essa vida”. É duro, mas é verdade.

A triste coincidência entre a revelação do número de homicídios entre os jovens, de maioria negra, dos últimos dois anos em Alagoas e o assassinato do empresário Guilherme mostrou bem como a hipocrisia está encruada nas pessoas.

Não se trata de não dar valor ao crime acontecido no bairro de Jatiuca, mas sim de questionar a indiferença com os assassinatos que acontecem em bairros como o Vergel do Lago e Clima Bom em Maceió. Sem falar naqueles do interior de Alagoas.

E sempre que alguém de “boa família” é vítima de assassinatos em Maceió, logo surgem campanhas pela paz, caminhadas de branco e segurando velas, clamor por justiça e todo o tipo de proselitismo de classe.

Na última vez que uma morte de alguém da classe média maceioense aconteceu, uma manifestação na orla de Maceió foi convocada com essas características. Também por outra triste coincidência, um jovem negro da periferia de Maceió, do bairro do Mutange, foi brutalmente assassinado. Mas dele ninguém lembrou, se indignou, se revoltou, se cansou. Nem sequer uma vela foi acessa por ele na parte nobre da cidade.

É uma verdade histórica a cultura da violência em Alagoas, como também é a indiferença com as vítimas pobres e negras das favelas e grotas. E isso só vai começar a parar quando de fato o tratamento dispensado pelo poder público a essas populações for pelo menos semelhante ao dispensado para a elite. Mesmo com os avanços dos últimos anos, esse trato ainda é muito desigual.

A onda de linchamentos que assombra o Brasil, estimulada pelos "Datenas" e pelas "Sheheradazes" da vida, aqui começou antes. Uma pena. E isso sim é motivo de indignação, de revolta, de cansaço. Mas não é o que acontece. Ao contrário, é o que muitos que estarão nas ruas com suas camisetas brancas e velas acesas na mão defendem que se faça. Afinal, “bandido bom é bandido morto”.

O sentimento de solidariedade concedida à família de Guilherme Paes Brandão e o desejo de que esse crime seja elucidado não é, não pode ser, menor do que a solidariedade e o desejo que os mais de dois mil crimes contra os jovens negros também sejam resolvidos.

E fica aqui o nosso manifesto de solidariedade tanto para a família do empresário quanto para as famílias dos jovens que são mortos todos os dias nas regiões mais pobres de Maceió e do interior de Alagoas.

Esse texto não é para familiares e amigos de Guilherme Paes Brandão. Não se pode imaginar a dor que eles estão sentindo nesse momento e é compreensível todo o sentimento de revolta que os assola. Esse texto é para aqueles que são movidos por indignação e revolta seletivas, não possuindo qualquer ligação com a vítima, mas que está com raiva de “tudo o que está aí”.

Enquanto a vida das pessoas de classe média ou alta, que moram em bairros nobres e condomínios fechados valerem mais do que as das pessoas mais pobres, que moram em bairros de periferia, favelas e grotas nunca teremos justiça de verdade. E mesmo que todos os presídios estejam lotados – e já o estão! Só que para a alegria da hipocrisia reinante, as cadeias e presídios estão lotados de negros pobres.

Os que realmente lucram com o crime estão em seus carros importados, em seus casarões e cobertura à beira-mar, convivendo e zombando dos indignados, dos revoltados e dos cansados com a violência nos bairros nobres. É triste, é duro, mas é verdade.

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