segunda-feira, 22 de junho de 2026

A intimidação como ideia, a censura como ato e a fantasia como propaganda

Reprodução/CNN


Quem pretende governar um estado precisa entender uma premissa elementar da democracia: o poder pertence ao povo. E, se o poder pertence ao povo, toda autoridade pública tem o dever de prestar contas de seus atos, responder questionamentos e conviver com críticas, especialmente quando elas dizem respeito ao uso de dinheiro público e a temas de evidente interesse coletivo.

Isso é respeitar o povo e não usar esta palavra em nome de usuário em rede social.

A trajetória recente de João Henrique Caldas (PSDB), conhecido como JHC, vai na contramão, apesar da aparência que vende – e muito bem – nas redes sociais.

Como alguém pode se apresentar como representante do povo, falar constantemente em nome do povo, inclusive quando é contrariado em negociações político-partidárias e, ao mesmo tempo, reagir às cobranças públicas recorrendo sistematicamente à Justiça contra jornalistas, comunicadores, veículos de imprensa e influenciadores?

É óbvio que também é inerente à democracia o direito de ação. Qualquer pessoa que se sinta ofendida tem o direito a acionar o ofensor. Mas será que pedir respostas, esclarecimentos, relatar ou comentar fatos ocorridos, por mais incômodos que sejam, é uma ofensa?

Um levantamento feito pelo jornal Tribuna do Sertão identificou pelo menos 35 ações judiciais movidas por JHC contra jornalistas, empresas de comunicação, comunicadores, empresários de mídia, perfis de notícias e influenciadores digitais entre março de 2024 e maio de 2026. Isso dá 1,34 ações por mês.

O número, por si só, chama atenção. Mas chama ainda mais atenção o padrão dessas ações.

A maior parte dos processos levantados pela Tribuna do Sertão está relacionada à repercussão jornalística sobre o aporte de R$ 117,9 milhões do Iprev Maceió nas letras podres do Banco Master, dinheiro pertencente a aposentados e pensionistas do município. Estas são as mais recentes.

Outro conjunto de ações decorre de críticas ao patrocínio de R$ 8 milhões concedido pela Prefeitura de Maceió à escola de samba Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval de 2024, ano de eleições municipais e que JHC disputaria a reeleição.

Nenhum desses temas é assunto privado. Nenhum deles pertence à esfera íntima de um político. Trata-se de recursos públicos e de decisões administrativas que afetam diretamente o interesse coletivo. São assuntos que, em qualquer democracia, precisam estar submetidos ao escrutínio da sociedade e da imprensa.

As ações movidas por JHC envolvem pedidos por danos morais, direito de imagem, perdas e danos e queixas-crime por calúnia e difamação. Segundo a Tribuna do Sertão, em diversos casos os pedidos de indenização eram padronizados em R$ 10 mil, independentemente de quem estivesse sendo processado.

Entre os processados por questionar os R$ 8 milhões dados à Escola de Samba Beija-Flor, está este colunista, que nunca afirmou ter ocorrido desvio de erário ou coisa que o valha. Apenas ousei, em vídeo no Youtube, apontar o interesse eleitoral nessa ação administrativa devido ao potencial de elevação de autoestima do maceioense, num ano eleitoral, em caso de vitória daquela que é a Escola que mais venceu os carnavais cariocas nos últimos 20 anos. Sem contar que à época, forrozeiros ainda reclamavam pagamentos do São João de 2023!

Os R$ 8 milhões pagos à Beija-Flor geraram outras ações movidas por JHC contra outros jornalistas, o que fez o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), em nota, afirmar que a prática era lawfare.

Mas esse não é um comportamento novo para o ex-prefeito de Maceió que, até este momento, quer ser eleito governador de Alagoas em outubro. Em 2016, JHC também ajuizou ações contra jornalistas e empresas de comunicação que repercutiram informações presentes no livro Os Bens que os Políticos Fazem, do jornalista Chico de Gois, obra que abordava a evolução patrimonial de diversos políticos brasileiros e levantava questionamentos sobre a origem e a evolução do patrimônio declarado por JHC.

O ponto central, repetindo, não é negar a qualquer cidadão, inclusive um agente público, o direito de recorrer à Justiça quando se sente ofendido. Esse direito existe e deve ser respeitado. O problema surge quando o recurso ao Judiciário deixa de ser um instrumento excepcional de proteção da honra e passa a ser método de reação à crítica e à cobrança pública.

Entidades nacionais e internacionais têm chamado esse fenômeno de assédio judicial. O Ministério Público Federal e organizações de defesa da liberdade de imprensa alertam que a multiplicação de processos pode produzir efeito intimidatório, gerando desgaste financeiro, autocensura e receio de abordar temas que desagradem os detentores do poder.

Mas se JHC está contando com isso, pode tirar sua cadeira gigante da chuva. Até porque, ninguém o está acusando de nada, apenas cobrando explicações de quem era o gestor do Município de Maceió quando o Iprev colocou R$ 117,9 milhões de aposentados do serviço público maceioense nas letras podres do Banco Master. Logo, não há razão nenhuma para temer qualquer intimidação judicial.

E que para quem vive falando em povo, dar explicações era algo que já deveria ter ocorrido.

A questão, portanto, é como alguém pode aspirar ao governo de um estado inteiro se demonstra tamanha dificuldade em conviver com o contraditório? Como representar milhões de pessoas se não se aceita o direito dessas mesmas pessoas de perguntar, questionar, cobrar...?

Governar é administrar conflitos. É prestar contas. É responder perguntas difíceis. É explicar decisões controversas. Não é possível pedir confiança ao eleitor e, simultaneamente, tratar a crítica como ofensa pessoal e a cobrança pública como algo a ser combatido judicialmente.

O discurso político de JHC frequentemente o vende com a imagem de um líder próximo do povo, moderno, acessível e sem máculas. Uma figura pública apresentada como alguém acima de qualquer questionamento, quase imune a erros, contradições ou decisões passíveis de crítica.

Mas a democracia não comporta personagens perfeitos porque não existem governantes sem áreas para questionamentos. Não existem homens públicos dispensados de explicações. Não existem administradores blindados contra o escrutínio da sociedade.

Quando a intimidação se torna uma ideia recorrente, quando a censura aparece como resposta prática à crítica e quando a propaganda procura construir a imagem de um líder sem imperfeições, o risco é que a política deixe de ser espaço de prestação de contas para se transformar em exercício permanente de fabricação de uma fantasia. E uma fantasia quase sempre autoritária.

Fantasias podem ser eficientes como peça de marketing em postagens nas redes sociais, mas são incompatíveis com a essência da vida numa sociedade democrática.


*Publicado originalmente no portal BNews Alagoas

domingo, 31 de maio de 2026

Sem ligar para trabalhadores, Eudócia Caldas assina PEC contra fim da 6x1 para enfraquecer Lula e Renan

Foto: Carlos Moura/Agência Senado


Após aprovação na Câmara dos Deputados da PEC que põe fim à escala 6x1, reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 semanais nesta quarta-feira (27), a oposição ao governo Lula protocolou no Senado a PEC 12/2026 como tática para impedir o avanço da pauta recém-aprovada pelos deputados federais e conta com a assinatura da senadora Eudócia Caldas (PSDB), mãe de João Henrique Caldas (PSDB), conhecido com JHC. Ela é a única dos senadores de Alagoas a assinar esta PEC.

Na Câmara dos Deputados, todos os parlamentares alagoanos votaram a favor do fim da escala 6x1, mesmo Fábio Costa (PP), que assinou duas emendas que desconfigurariam o projeto. Os bolsonaristas ainda tentaram, “aos 47 do segundo tempo”, colocar para debate uma escala em 4x3 para, além de confundir o eleitorado, atrapalhar a aprovação da construção em torno do fim da 6x1.

domingo, 24 de maio de 2026

Aldo Rebelo é mais um a expor caso Master em Maceió; JHC calado até quando?



No último dia 12 de maio, o senador Renan Calheiros (MDB) expôs o aporte financeiro de R$ 117 milhões do Iprev de Maceió nas letras do Banco Master, apontou para a possibilidade de ter ocorrido fraude nas assinaturas do conselho do Instituto e questionou a venda da folha de pagamento dos servidores para o BRB.

Este é um tema que JHC foge como o diabo foge da cruz, mas parece que ele terá que correr um pouco mais.

Nesta quarta-feira (20), o ex-deputado federal e ex-ministro Aldo Rebelo – alagoano de Viçosa – afirmou à CNN Brasil que sua pré-candidatura a presidente da República pelo Democracia Cristã (DC), presidido por João Caldas, pai de JHC, foi rifada por causa do “escândalo envolvendo o Banco Master em Maceió”.

domingo, 17 de maio de 2026

Renan Calheiros joga maior calo de JHC no ventilador

Senador Renan Calheiros durante sessão da CAE - Andressa Anholete/Agência Senado

O senador Renan Calheiros, presidente da Comissão de Assuntos do Senado (CAE), jogou o envolvimento da prefeitura de Maceió, sob João Henrique Caldas (PSDB), conhecido como JHC, com o Banco Master no ventilador  durante sessão da Comissão nesta terça-feira (12). O Município de Maceió, sob o comando do neotucano, aportou R$ 117 milhões do Instituto de Previdência (Iprev) nas letras podres do banco de Daniel Vorcaro.

Este é o maior calo que JHC possui, ao ponto de ele sempre buscar cercear o debate público acerca do tema. Sites, jornais, jornalistas, comentaristas, todos que falaram sobre o tema foram processados por JHC numa clara tentativa de lawfare e para fingir que nunca teve nenhuma relação com o Master.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Ronaldo Lessa e a ilusão sobre JHC apoiar Lula em outubro


Em entrevista ao CM cast, programa de entrevista do portal Cada Minuto comandado por Carlos Melo e Ricardo Mota, o vice-governador de Alagoas Ronaldo Lessa, do PDT, afirmou que JHC deve apoiar o presidente Lula nas eleições deste ano. Ele chegou a afirmar que “JHC é muito mais para Lula do que qualquer possibilidade de estar com Flávio Bolsonaro”.

Com todo respeito à história de Ronaldo Lessa, mas essa afirmação é – para dizer o mínimo – infantil, tola, boba até.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Sobre o possível vai e vem de Ronaldo Lessa


Neste domingo, 19 de abril, saiu a informação de que Ronaldo Lessa (PDT) estaria para deixar a aliança com o MDB e voltar a compor com JHC, agora no PSDB, para as eleições deste ano ou como candidato a vice-governador ou como candidato ao Senado.

Se isso, de fato, ocorrer, mexe com o tabuleiro eleitoral, deixando algumas perguntas a serem respondidas. Para mim, as mais importante são: