sábado, 31 de janeiro de 2026

Duas caras de JHC para não ficar preso a ninguém



O prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (JHC), presidente estadual do PL, segue fazendo o jogo de duas caras. Aperta a mão para um lado e depois a do outro para dizer que o gesto anterior não foi bem assim.

Trata-se de medição constante de temperatura para medir até onde dá para ir no cumprimento do tal “Acordo de Brasília”, que desmontaria a arrumação preestabelecida do tabuleiro político alagoano. O resumo do acordo é: JHC não seria candidato a nada, trocaria o PL por um partido da base de Lula, apoiaria Renan Filho ao Governo do Estado, Renan Calheiros e Arthur Lira ao Senado. Em troca, sua tia, Marluce Caldas iria para o STJ.


JHC já recebeu sua parte e Marluce Caldas já é ministra do STJ.

O problema é que além da mexida no tabuleiro político local, essa configuração afeta o eleitorado mais emocionalizado, que não entende – nem quer entender – as nuances do jogo político, o vendo como se fosse dois times de futebol numa partida e torcendo por um deles.

O eleitorado bolsonarista já passou a chamar JHC de traidor pelo afago em Lula no dia 23 de janeiro, sem nem perceber que o prefeito, apesar da fala elogiosa, ressaltou caráter institucional entre entes federados.


Aliás, esse eleitorado sequer é capaz de perceber que JHC jamais fez nenhum gesto em direção a Jair Bolsonaro, sendo ele, o prefeito de Maceió, somente o presidente do PL local.

O mesmo comportamento vale para o eleitorado lulista que o vê somente com mais um bolsonarista.

O reducionismo leva ao erro de análise e, consequentemente, ao erro de ação, de tática e de estratégia.

E nesse cenário, JHC vem seguindo no “doiscarismo” e fará o máximo para permanecer assim, se equilibrando até onde e quando der.

Senta com José Dirceu, que esteve em Maceió no começo de janeiro para ato em lembrança aos ataques de 8 de Janeiro. A conversa com Dirceu ocorreu dias depois de divulgado uma reunião entre JHC, Lira e Alfredo Gaspar.

A notícia sobre o encontro com José Dirceu é divulgada com a informação que o petista cobrou de JHC o cumprimento do acordo. Dias depois, JHC reúne em sua casa os vereadores da capital alagoana de sua base – cerca de 15 de 27. Encontro, inclusive, que os vereadores apagaram os registros de suas redes sociais.


Vem a entrega dos apartamentos do Minha Casa Minha Vida e JHC elogia Lula. Dias depois, reúne vereadores e mais algumas lideranças, desta vez, com um banner do PL ao fundo.


Em todos os momentos, segundo os relatos, em on ou em off, JHC disse o que o público da vez queria ouvir: “vou cumprir o acordo”, “serei candidato a governador”.

Durante esse ínterim, JHC testou o nome de Marina Candia ao Senado, com as pesquisas mostrando que ela pontua bem. Seu nome chegou a ser discutido como suplente, ou de Arthur Lira ou de Alfredo Gaspar.

Evidente que esse movimento amararia JHC politicamente.

Mas lançar Marina ao Senado significaria desfazer o “Acordo de Brasília” em duas pontas: de Arthur Lira e de Renan Calheiros.

Ao não lançar a esposa ao Senado, JHC pode seguir dizendo que está buscando cumprir o acordo. E até está, na verdade.

Nesta sexta-feira (30), JHC anunciou que Marina Candia será candidata a deputada federal.

Pronto, disputa ao Senado resolvida em relação à candidatura. Se ele vai apoiar, de verdade, alguém, só saberemos quando começar a campanha eleitoral.

Sobre a parte de apoiar Lula. JHC, minha aposta, fará – no máximo – o mesmo que fez com Bolsonaro em 2022: Mingué.

Já para o Governo do Estado, JHC não vai cumprir nada. Não tem como ele não ser candidato agora em 2026 para ficar pelo menos dois anos sem mandato a partir de 2029. E já dava para saber disso quando do fechamento do tal acordo. As partes só não quiseram enxergar isso, ou contavam com descumprimento na disputa ao Senado por serem duas vagas em disputa neste ano.

Lançar Marina Candia à Câmara dos Deputados é um “seguro mandato”, caso seja derrotado em outubro para não ficar “sem nada”.

Ao não se manifestar abertamente sobre o que está pensando, JHC vai esticando a corda do “doiscarismo”, que manterá – posso apostar – para a disputa presidencial até o fim para manter a porta aberta com o próximo presidente da República e, a depender da situação, até mesmo para indicar cargos federais ou até ocupar um, caso o resultado eleitoral de outubro em Alagoas não seja o que espera.

JHC sabe que o grupo que tem agora é por ele, mas pela caneta que tem na mão e que se ficar sem mandato – ou caneta – será trocado pelos amigos fiéis de agora pelo próximo “ponta-de-lança” da política da vez.

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