Artigo de Antonio Ibañez sobre o Plano de Desenvolvimento da Educação publicado no Blog do José Dirceu.
A Educação em Debate
Antonio Ibañez Ruiz*
No comentário “O debate sobre a universidade e a crise da USP” de 25/05, neste blogdodirceu, o autor e responsável pelo blog, confirma a necessidade do debate, a respeito da educação pública, não só pela comunidade acadêmica, mas pelo conjunto da sociedade. Segue a minha contribuição para dar continuidade ao debate.
A recente divulgação do Plano de Desenvolvimento da Educação provocou uma enorme quantidade de notícias e comentários a respeito do tema. O assunto que mais chamou a atenção foi a questão da avaliação da qualidade, uma vez que o Plano vem para combater a baixa qualidade da educação. Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), da Prova Brasil, do Ensino Médio (Enem), do Programa de Avaliação Internacional (PISA) e, ainda, simulações com o novo indicador proposto pelo Ministério da Educação (MEC), o Ideb (Indicador de Desenvolvimento da Educação Básica), foram noticiados amplamente como forma de confirmar a baixa qualidade da nossa escolarização, pública e privada. Foi um massacre contra as escolas, principalmente, contra as públicas, apesar do MEC ter divulgado experiências de sucesso de algumas poucas escolas públicas.
Ninguém duvida de que a nossa educação básica carece da qualidade de que todos nós sonhamos para os nossos jovens e, principalmente, quando comparada com outros paises. Parece que ninguém duvida, também, de que é necessário se utilizar indicadores que possam nos orientar a respeito de como está se desenvolvendo a educação, seja básica ou superior.
Curiosamente e, apesar dos vários indicadores, não sabemos, ainda, como os nossos jovens se desenvolvem em relação a outras áreas do conhecimento diferentes das escolhidas nas avaliações, em geral, português e matemática. Não estou questionando a importância destes indicadores, estou apontando a falta de outros indicadores. Parece que estes outros indicadores não levantam curiosidade ou são de menor importância. Alguém se pergunta qual é o comportamento ético dos nossos jovens e quais são os indicadores que poderiam nos mostrar a visão que eles estão adquirindo desse nosso mundo globalizado e injusto? Ou então, quais são os indicadores que nos permitem avaliar os princípios e os valores praticados e respeitados por nossos jovens? Sem contar com os indicadores a respeito do nível de desenvolvimento cultural, histórico, social e, por ai vai.
Essa febre por determinados indicadores e a carência total de muitos outros pode ter sua causa na predominância e, aparentemente, quase hegemônica visão da existência de um modelo de educação que prioriza resultados, sem muito questionar a forma de obtenção dos mesmos, e nem a capacidade crítica, criativa, reflexiva ou comportamental dos nossos estudantes. Parece que estas qualidades não são importantes, mas se olhássemos ao nosso redor, hoje em dia, notaríamos que os princípios éticos de: respeito, humildade, tolerância, confiança, responsabilidade, justiça, sinceridade e solidariedade praticados por alguns dos setores da nossa sociedade não sobressaem propriamente pela qualidade apresentada, haja visto os diversos e sucessivos escândalos noticiados pela mídia.
Por que não desenvolver e divulgar indicadores que nós mostrem o real valor do conhecimento que a escola acrescenta ao aluno, desde o seu ingresso nela até a sua saída, para conhecer melhor o papel que ela representa no aprendizado das crianças e dos adolescentes? Se este tipo de avaliação fosse apresentado eliminaria muitas das injustiças que se cometem contra os professores e as escolas públicas, uma vez que elas são capazes de suprirem parcialmente as deficiências dos alunos provenientes de famílias que sofrem com a falta de condições econômicas e sociais.
Creio, portanto, que existe um outro modelo de educação que não considera prioritários os indicadores, mas simplesmente os considera como mais uma indicação de como a educação se encontra. Este outro modelo valoriza mais o professor já que permite que ele tenha mais liberdade de ensinar o que é mais adequado para criança, sem sofrer a pressão de ter que ensinar somente aquilo que será cobrado nos testes de conhecimento.
Nesse sentido, cabe ao MEC propor o diálogo entre os setores da sociedade que possuem visões diferentes em relação ao modelo de educação e coordenar um pacto permanente pela educação, estabelecendo mudanças curriculares, financiamento, piso salarial, carreira docente, jornada de trabalho, gestão democrática das escolas e dos sistemas, implantação e recuperação de bibliotecas, aperfeiçoamento de professores, como principais questões que afetam diretamente a qualidade da educação. A partir daí definem-se quais os indicadores a serem utilizados e as metas a serem cumpridas pelos sistemas.
Não considero como a melhor solução para beneficiar a qualidade da educação que o MEC opte por um dos modelos de educação, aqui apresentados, mas sim que coordene o diálogo e o acordo entre os diversos setores da sociedade com o objetivo de obter o acordo que resulte na melhoria da educação que a sociedade deseja.
*Antônio Ibañez Ruiz é professor e ex-Reitor da Universidade de Brasília (1989-93)
Nenhum comentário:
Postar um comentário