Em entrevista ao CM cast, programa de entrevista do portal Cada Minuto comandado por Carlos Melo e Ricardo Mota, o vice-governador de Alagoas Ronaldo Lessa, do PDT, afirmou que JHC deve apoiar o presidente Lula nas eleições deste ano. Ele chegou a afirmar que “JHC é muito mais para Lula do que qualquer possibilidade de estar com Flávio Bolsonaro”.
Com todo respeito à história de Ronaldo Lessa, mas essa afirmação é – para dizer o mínimo – infantil, tola, boba até.
Primeiro que JHC jamais pediu votos para presidente da República. Ao menos, não de forma explícita.
JHC era do PSB, partido que formalmente era contrário ao golpe contra Dilma Rousseff, mas que liberou sua bancada naquele fatídico dia 17 de abril de 2016. Para não ficar por baixo daquele circo ali montando, JHC anunciou seu voto enrolado com a bandeira de Alagoas e engrossou o caldo de lorota golpista naquele plenário.
Mas esse episódio nem o principal ou solo no vasto histórico de oportunismo político de JHC quando se trata de eleição presidencial, que é o que estamos tratando aqui. Em 2018, o Brasil vivia uma onda de fora todos. Onda que foi surfada por Jair Bolsonaro, que se vendeu – e foi comprado – como um outsider da política depois de décadas de Câmara dos Deputados e com todos os seus filhos maiores de idade, até então, exercendo mandatos eletivos.
JHC se deixou associar àquela onda, mas jamais pediu voto para Jair Bolsonaro.
Em 2022, entre o primeiro e o segundo turno daquela eleição, JHC troca o PSB pelo PL. Ele foi até ao Palácio do Planalto para o anúncio da troca ser feita numa coletiva ao lado do então presidente Jair Bolsonaro.
Aquilo lhe rendeu muitas manchetes nacionais. Afinal, era um prefeito de capital do Nordeste – região que vota majoritariamente em Lula desde 2002 – migrando do partido do candidato a vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin, para o partido de Bolsonaro.
JHC fez aquele movimento mirando as eleições de 2024, já que Bolsonaro havia acabado de vencer Lula naquele primeiro turno em Maceió, se movendo para próximo da maior fatia do eleitorado maceioense, mas não deu um voto sequer – que não o dele, talvez – a Jair Bolsonaro porque não pediu um único voto publicamente para Jair Bolsonaro.
Para não dizer que não participou de nada naquela campanha eleitoral, JHC esteve em um evento com Michelle Bolsonaro a portas fechadas numa igreja evangélica em Maceió. Evento que mal foi postado em suas redes sociais, salvo por alguns segundos nos stories que só ficam 24 horas no ar.
À frente do PL, JHC jamais defendeu Bolsonaro ou os bolsonaristas sobre absolutamente nada. E depois de ser reeleito prefeito de Maceió – pelo PL – JHC se bandeou para Brasília, chegando a ficar mais tempos na capital federal, com passagens por São Paulo, que em Maceió para iniciar seu segundo mandato.
Em seus giros longe de Maceió, JHC pajeou, e muito, o presidente Lula. Foi a homenagem para a primeira-dama Janja da Silva em São Paulo; foi a posse de ministros, como a de Gleisi Hoffmann na Secretaria de Relações Institucionais.
O motivo?
Garantir a indicação de sua tia, Marluce Caldas, ao Superior Tribunal de Justiça, STJ, na vaga do Ministério Público. Para conseguir essa vaga, até acordo eleitoral – péssimo para ele, por sinal – JHC fechou.
Nesse ínterim, JHC jamais citou o nome de Lula. Sempre quando questionado se ele apoiaria Lula, desconversou. “Relação institucional”, era o que sempre dizia e voltará a dizer se perguntado daqui por diante.
Durante uma entrega de unidades do Minha Casa, Minha Vida em Maceió, em janeiro deste ano, JHC rasgou elogios a Lula, desejou saúde, mas não disse que o queria mais quatro anos na Presidência da República. Ele enfatizou “parceira institucional”. E só.
Os bolsonaristas ficaram enraivecidos, lulistas ficaram eufóricos, mas quem prestou atenção, não tirou da mente o seguinte pensamento: que filho da mãe sacana.
JHC levou seu jogo de duas caras o quanto pôde para as eleições deste ano. Se reunia com Arthur Lira, Alfredo Gaspar e a cúpula nacional do PL com uma conversa. Mas também se reuniu com figuras como José Dirceu.
Arthur Lira se cansou desse jogo e, por cima, via cúpula nacional do PL, tirou a legenda de JHC em Alagoas.
Pronto, agora vai.
JHC fora do PL pode dizer que apoia a reeleição de Lula, podem estar pensado alguns politicamente infantilizados, mas JHC se filia ao PSDB e tem a desculpa perfeita para não declarar voto em ninguém.
Primeiro porque, muito provavelmente, o PSDB não vai coligar com nenhuma candidatura em nível nacional. Segundo que ele tem o argumento de que o PSDB não apoia os Bolsonaros e não apoia o PT.
JHC não é nada, além de Jotista. Ele não é Bolsonaro; não é Lula; não é Ciro; não é tucano. Nada.
JHC é ele e somente ele.
Além do que, nessa misancene, ele vai fingindo para quem quiser acreditar que apoia o seu presidenciável e, assim, busca diminuir os riscos de perder votos dos apoiadores de Bolsonaro e de Lula.
E se declarar voto, numa conjunção astral de todo os planetas e estrelas da Via Láctea, será o mais à direita possível. Se fizer, mas não vai.
Jamais JHC fará como Renan Filho, que afirma onde chega, onde vai, que apoia o presidente Lula. Ou mesmo como faz Alfredo Gaspar, ao falar de Bolsonaro.
Por isso, afirmo que a fala de Ronaldo Lessa ou é jogo para a torcida, para seu eleitorado mais à esquerda; ou ele acredita em Papai Noel, unicórnios ou coisa que o valha porque nessa altura do campeonato, com o tempo de política que Ronaldo Lessa tem e todo o histórico de JHC, o vice-governador que busca ser vice por mais quatro anos, mas agora de outro, vir com essa é dureza de ouvir.
“JHC é muito mais para Lula do que qualquer possibilidade de estar com Flávio Bolsonaro”, afirmou Ronaldo Lessa mesmo com JHC tendo deixado o PSB para se filiar ao PL ao lado de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto logo após o primeiro turno da eleição presidencial de 2022. Mesmo JHC tendo surfando a onda bolsonarista em 2018.
Na verdade, o histórico de JHC diz que ele não vai declarar voto em ninguém, bancando o neutro, como sempre – oportunisticamente – fez.
*Publicado originalmente no portal BNews Alagoas
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