sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A “margarida” JHC apareceu na TV com omissões e fatos sem contexto

Reprodução/TV Pajuçara


E não é que a “margarida” apareceu. João Henrique Caldas (PSDB) foi à TV Pajuçara para participar da sabatina promovida pela emissora. Por 20 minutos, ele falou sobre suas propostas de governo e sobre o atual cenário de Alagoas em diversas áreas. 

Contudo, ele deixou de enfrentar problemas concretos das áreas que administrou como prefeito de Maceió. Em alguns casos, mais do que omissão, houve uma tentativa de apresentar como novidade aquilo que já existe ou de atribuir à sua gestão resultados construídos anteriormente ou mesmo que não são fruto de ação municipal.

Na educação, o principal problema é a distância entre a expansão física e a estrutura permanente da rede. JHC fala dos Gigantinhos como uma grande marca de sua gestão, mas não enfrentou a questão dos profissionais. A Prefeitura recorreu a um PSS com 5.721 vagas em 2026, incluindo milhares de auxiliares e profissionais da educação. Além disso, na rede municipal, muitos profissionais não possuem o salário-mínimo com base, tendo seus pagamentos complementados com benefícios, afetando suas aposentadorias.


Outro detalhe é que o Gigatinhos só veio após o programa Creche CRIA do governo Renan Filho que, aliás, Maceió se recusou a receber os equipamentos para geri-los. O caso mais emblemático foi a primeira unidade na capital alagoana, cujo argumento da prefeitura envolvia a cessão do terreno onde a creche foi construída. 

A pergunta que ficou sem resposta é por que uma expansão tão celebrada não foi acompanhada pela realização de concurso público.

Na educação, JHC também não omitiu problemas como progressões, licença-prêmio, transporte, uniformes e condições de trabalho. 

Já sobre a saúde, a principal omissão foi confundir obra com funcionamento do serviço. JHC pode apresentar hospitais e equipamentos como realizações, mas isso não responde às denúncias sobre o funcionamento da rede.

O Hospital da Cidade, por exemplo, foi alvo de questionamentos sobre sua aquisição, desde o valor ao que já estava em funcionamento. Mais recentemente, aquela unidade esteve no centro de um caso gravíssimo envolvendo a morte de um bebê após a mãe dar à luz na recepção, além de outros relatos de problemas no atendimento.

O HC PET, voltado à medicina veterinária, também expõe essa diferença entre inaugurar e funcionar. A unidade foi inaugurada em abril, mas demorou a efetivamente começar os atendimentos. Depois de entrar em funcionamento, continuou recebendo reclamações sobre demora e falta de profissionais. Portanto, a questão não é negar a existência dos equipamentos, mas perguntar se eles funcionam adequadamente.

Sobre a regionalização da saúde, JHC apresentou a criação de uma terceira macrorregião como uma grande novidade, mas Alagoas já possui duas macrorregiões e dez regiões de saúde, além de hospitais regionais construídos nos governos Renan Filho e Paulo Dantas, ambos do MDB. 

Nas respostas sobre segurança pública, JHC não tratou de questões estruturais, como efetivo, condições de trabalho e capacidade operacional de guardas municipais, em vez de concentrar o discurso apenas em ações e equipamentos. Em relação aos regimes/modelos para cumprimento de penas, promoveu descontextualização.

Já sobre violência contra a mulher, a distorção foi total. JHC afirmou que a “violência contra a mulher aumentou 36%”. Isso é erro factual. O percentual de 36% se refere a mulheres que relataram situações de violência sem reconhecê-las como violência doméstica/familiar. Esse dado é do DataSenado e do Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado.

Agora, outro ponto da entrevista que merece ressalva é a afirmação de que sua gestão em Maceió “criou” 60 mil empregos na capital alagoana. O número se refere ao saldo de empregos formais registrado pelo Caged na cidade desde 2021, e não a postos criados diretamente pela Prefeitura.

É até legítimo atribuir parte desse desempenho a políticas municipais de investimentos, turismo e/ou desburocratização, mas a geração de empregos depende essencialmente da dinâmica da economia nacional, que envolve diversos fatores desde investimentos estrangeiros, a internos, políticas de aumento de poder de compra para girar a roda da economia criando demanda. Enfim, o número de empregos gerados em Maceió é muito mais conta do governo Lula do que dele, JHC à frente da prefeitura de Maceió.

Não estivesse a economia brasileira com bons números, com a renda média elevando e empregos sendo criados, a prefeitura de Maceió poderia fazer o que o fosse. Portanto, transformar todo o saldo do Caged em resultado direto da gestão JHC é uma simplificação grosseira.

O problema central da entrevista de JHC, em minha avaliação, foi não responder se os serviços públicos estão funcionando bem, com profissionais suficientes, estrutura permanente e capacidade de atender a população? As demais questões até fazem parte da disputa eleitoral.

Nesta quinta-feira (10), a TV Gazeta realiza o primeiro debate entre ele e Renan Filho. Se a margarida comparecer, talvez essas questões sejam tratadas como se deve.


*Publicado originalmente no portal Bnews Alagoas


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